Em alguns lugares do mundo acredita-se que as edificações são vivas, resultante da simbiose entre o material orgânico dos operários que lá trabalharam com o matéria usada na estrutura. Sangue, unhas, cabelos, esperma, catarro e saliva em combinação com cimento, pedra e areia para formar seres gigantes, que crescem além das e árvores e das dimensões humanas, sustentados por poderosas estruturas de ferro, coberto pelo reflexo magnífico de vidros azulados.

Nesses lugares, erguem-se-se prédios enormes que apontam para o céu, mostrando o caminho para o criador. Os grandes artistas planejam pontes e marcos – estruturas inúteis, pensa o viajante estrangeiro, que não entende o sentido daquilo – para louvar a união do homem com a pedra.

Cidadãos correm aflitos a cada vez que um novo prédio está pronto, pela glória de serem os primeiros a adentrarem na bocarra das criaturas, olharem através de seus olhos envidraçados e se integrarem ao gigante, movimentando-se internamente como minúsculos glóbulos sanguíneos.

O construtor, mais que arquiteto ou engenheiro, mais que mero empreendedor, é rei e sacerdote. Do alto de sua janelas, nos últimos andares das torres, sorri com benevolência aos transeuntes que parecem rastejar sobre as calçadas. O peso da responsabilidade não o dobra e ele atira uma moeda distraidamente, pensando por um segundo quem iria acha-la, mas a imagem some rapidamente e então leva o copo de uísque aos lábios, estalando a língua com prazer.

(Um texto escrito em 07 de Abril de 2010)

 

Não tenho nenhuma opinião sobre Chico Buarque, tenho lembranças! Meus primos paulistas cantavam suas músicas ao violão e lembro da minha mãe ouvindo “A Banda”, que meu pai massacrava no banjo, dando ênfase ao ritmo mais que a melodia. Acho que li a letra de “A Banda” bem antes de ouvir a música pois estava lá, impressa no meu livro de alfabetização, doce, otimista e ingênua canção de ninar nos tempos de medo e enjôo da ditadura.

Aos militares, ele dizia que “você não gosta de mim, mas sua filha gosta”. Mesmo agora, passado tantos anos, Chico Buarque conseguiu manter o amor das mães que ensinaram as filhas a admirar a beleza de seus olhos claros e de suas palavras ternas ao descrever o espírito feminino da classe média brasileira. 

(Lindo, lindo, dizem as moças)

Chico Buarque é uma entidade que pode aparecer no calçadão de Ipanema ou num night club em Paris, mas também dizem que ele está jogando futebol nesse exato momento ou ainda que deu o ar de sua graça no sonho de alguma dona-de-casa entediada.
(Lindo, lindo, berram em coro as donas-de-casa)

Homens enciumados defendem que ele é um péssimo cantor enquanto outros, conformados com sua pequenez tentam copia-lo. Mas faltam os olhos, aqueles olhos! 

(Aqui em Pernambuco há quem afirme com convicção que ele é o pai biológico do governador do estado, dono de semelhante olhar verde-hipnótico).

Tive a honra de fazer o que deve ser o único remix consentido em sua carreira. A música, “Ode aos ratos” está presente no álbum “Carioca” e me rendeu a oportunidade de defender, como goleiro, as cores do Polyteama, onde nossa lenda viva exerce o papel de zagueiro e fundador. O homem de olhos verdes e jeito de moleque me chamava de “minha muralha”, não sei se por ironia –sou baixinho e jogo mal -, por carinho, ou por ambos. 

Isso aconteceu em Berlim, na última copa do mundo, era um jogo absolutamente informal entre brasileiros e alemães, sem nenhuma divulgação, mas ainda assim ouvia-se vozes femininas em tom de histeria a gritar: “lindo, lindo”!!!!