Aprendi a ler muito cedo, com quatro anos de idade.  Minha mãe costumava ler histórias para mim, especialmente de uma revista chamada Disneilândia. Ela conta e eu também lembro do mesmo jeito: um dia, enquanto ela narrava as aventuras de Dumbo, tomei a revista e comecei a identificar  palavras isoladas e alguns dias depois já sabia como conecta-las, formando orações completas. Nessa época eu nem tinha entrado para a escola e grande parte do meu tempo livre era gasto com leituras. Desde então tornei-me um leitor obsessivo e faminto.
Na cidade em que morávamos e que viu minha mãe nascer e crescer, também morava o Professor Gumercindo, um senhor franzino com óculos de lentes grossas, aparentemente mais pesadas que seu corpo sempre pendente para a frente. Ele alfabetizou grande parte dos moradores de Propriá, incluindo minha mãe e meus tios. Era um homem querido e afável que me tomou como pupilo e apresentou os clássicos. Com cinco anos de idade eu já tinha devorado toda a Odisseia de Homero, um volume grosso, traduzido num português barroco, cheio de palavras novas e sentidos que me escapavam. Nesse caso, basicamente acompanhava a história, quem matou quem, como o  herói combateu o inimigo e conseguiu voltar para casa, etc…   A cada devolução, que também significava um novo empréstimo, o Professor Gumercindo me arguia para saber se eu realmente tinha lido, explicava o que me escapava e discutíamos sobre o conteúdo. Agradeço a ele por ter sido tão paciente e me botar no caminho da interpretação, coisa que grande parte dos alfabetizados não consegue fazer.
Sua casa era como outras da cidade: estreita porém longa, infinitamente longa para mim, uma criança mirrada e espantada. Todos os quartos eram repletos de livros, uma verdadeira biblioteca que, para mim, equivalia o que uma loja de doces equivale para as outras crianças.  Foi de uma daquelas estantes que retirei meu primeiro Eça de Queiroz, uma compilação de contos, dentre eles, um que me aterroriza até hoje. Era sobre um padre que cortou a perna de um porco e quando morreu foi posto numa balança para saber se ia para o céu. Do outro lado, o porco cotó, sangrando, pesava mais e o padre foi jogado nas labaredas do inferno.
Apesar de minha mãe e do professor Gumercindo amarem as letras e terem sido capazes de passar esse gosto para mim, a maior parte da cidade conspirava contra a leitura e o conhecimento.  Naqueles tempos haviam os doidos que perambulavam pelas ruas em terno rotos, batendo palmas nas portas das casas em busca de sobras do almoço ou de um copo d’água. Quase todos tinham histórias sobre antes da ruína, passadas de boca em boca e, certamente, aumentada à medida em que se espalhava. Inevitavelmente tinham sido ricos até que uma tragédia abate-lhes a razão. Para alguns, tinha sido a traição ou o abandono da mulher amada mas a grande maioria tinha enlouquecido por ler demais. Exceto um deles, um negro muito elegante do qual não lembro o nome, que tinha estudado muito matemática e pirou geral. Assim, de uma hora para a outra.
A leitura, portanto, devia ser como uma droga, um veneno medicinal, que só podia ser usada em doses pequenas, calma e lentamente, tendo cuidado ao mistura-la com outras coisas. Meu tio sofreu um derrame e, dentro de casa, o diagnóstico foi o seguinte: almoçou e depois foi ler jornal. Durante anos acreditei que ler depois de comer podia matar.
Posso dizer que só existo por causa das letras.  Não fossem elas, meus pais não teriam se conhecido. Após tentar a vida em São Paulo como músico (chegou a gravar um disco), açougueiro e operário, meu pai voltou `a pequena Propriá decidido a mudar de vida e ascender socialmente. Então, deu o primeiro passo, que foi se inscrever no programa de alfabetização federal, para aprender a ler.
Adivinhem quem era a professora, que rompeu um noivado promissor por estar igualmente apaixonada pelo aluno?

Há um lugar onde a relação entre homens e seus carros são semelhantes a tartarugas e suas cascas.

É dentro dos seus carros/cascas que eles vivem, se reproduzem e protegem os filhos até o momento em que estes poderão ter seus próprios carros/cascas, perpetuando a espécie. Os pais ficam orgulhosos ao verem suas crias dominando o volante, passando a marcha correta e puxando a embreagem. Então, piscam os faróis de modo cândido e feliz.

Naquele lugar, outros homens carros/cascas completam seus corpos com veículos pesados e potentes, tais como escavadeiras, máquinas de terraplanagem, guindastes e caminhões longos e pouco delicados, com o objetivo de construir estradas para que outros homens carros/casacas possam correr livremente pelo mundo, cortando o ar em velocidades estonteantes. Os operários sentem-se orgulhosos – de fato se veem como heróis – por trabalharem em prol das liberdade.

Liberdade é ter estradas de asfalto, lisas e infinitas, cruzando o mundo, à disposição dos espíritos automotivos.

(Nesse momento, evoca-se a visão de faróis dianteiros em movimento, iluminando a escuridão da noite, como os olhos brilhantes das mais belas feras selvagens, roncando alto o poder dos motores).

Os homens carros/cascas tem um enorme desprezo por pedestres e não conseguem entender a razão de alguém se deslocar usando pernas. O desprezo é mútuo e feroz e é por isso que os pedestres, quando veem um dos homens carros/cascas preso em ferragens após a colisão com um poste, a vida se esvaindo numa poça de sangue, fazem selfies divertidos para compartilhar nas rede sociais.