O Lua e eu

Quando eu tinha 18/19 anos era magro e muito franzino, o que fazia parecer que minha cabeça era uma bola coberta de espinhas equilibrando-se sob um palito. Acrescente a essa formula de fazer monstro, o fato de que eu era punk, vestido em calças rasgadas, coturnos e cabelos raspados ou mal cortados. Em Aracaju, quando andava pelas ruas, a coisa mais doce que ouvia era “viado” (com ï” já que não era uma referência àqueles belos animais que pulam nos filmes da Disney), para não falar do não dito, o gestual claramente repugnado e hostil dos cidadãos ao redor.

Apesar disso e, se é que era um contraponto real, eu tinha pretensões artísticas, sendo um bom desenhista que pintava com certo talento, além do que meu interesse pelas artes plásticas ia bem além do superficial.

Nessa época concedi-me a alforria, peguei um ônibus e fui embora com um amigo morar no Recife sob o pretexto de estudar artes plásticas, que virou arquitetura e, posteriormente, design. O primeiro passo para fazer parte da vida recifense foi inscrever uns trabalhos no Salão de Artes Plásticas do Museu do Estado. Quando o período de exibição acabou fui recolher minhas obras e, já saindo, dei de cara com o velho Lula, Gonzagão, Luiz Gonzaga, O Rei do Baião, o Lua, para os íntimos, meu Elvis particular mesmo antes de eu saber da existência de Elvis.

Amar as canções de Luiz Gonzaga é uma prerrogativa para ser nordestino. Sua obra atravessou gerações e conseguia misturar sentimentos mais ambíguos, entre o avanço estético no diálogo com a tecnologia de estúdio da época ao puro conservadorismo, da safadeza explícita à religiosidade obscura. Como um grande ícone, contraditório, rico e, principalmente, humano, verdadeiro em suas convicções.

Não me contive e tentei falar com ele para dizer o quanto admirava-o e ele deu uns passos para trás, boquiaberto com aquela visão do inferno, chocado com a degradação da juventude, suponho. Lembro o que me senti desapontado mas igualmente feliz pelo efeito da provocação, como afirmação rebelde.

Gostaria que ele estivesse vivo, gostaria de ter tido a oportunidade de mostrar a homenagem que fiz para ele, numa das minhas primeiras gravações em estúdio e – juro! – ainda me divertiria muito se ele esculhambasse com ela.

Letras

Aprendi a ler muito cedo, com quatro anos de idade.  Minha mãe costumava ler histórias para mim, especialmente de uma revista chamada Disneilândia. Ela conta e eu também lembro do mesmo jeito: um dia, enquanto ela narrava as aventuras de Dumbo, tomei a revista e comecei a identificar  palavras isoladas e alguns dias depois já sabia como conecta-las, formando orações completas. Nessa época eu nem tinha entrado para a escola e grande parte do meu tempo livre era gasto com leituras. Desde então tornei-me um leitor obsessivo e faminto.
Na cidade em que morávamos e que viu minha mãe nascer e crescer, também morava o Professor Gumercindo, um senhor franzino com óculos de lentes grossas, aparentemente mais pesadas que seu corpo sempre pendente para a frente. Ele alfabetizou grande parte dos moradores de Propriá, incluindo minha mãe e meus tios. Era um homem querido e afável que me tomou como pupilo e apresentou os clássicos. Com cinco anos de idade eu já tinha devorado toda a Odisseia de Homero, um volume grosso, traduzido num português barroco, cheio de palavras novas e sentidos que me escapavam. Nesse caso, basicamente acompanhava a história, quem matou quem, como o  herói combateu o inimigo e conseguiu voltar para casa, etc…   A cada devolução, que também significava um novo empréstimo, o Professor Gumercindo me arguia para saber se eu realmente tinha lido, explicava o que me escapava e discutíamos sobre o conteúdo. Agradeço a ele por ter sido tão paciente e me botar no caminho da interpretação, coisa que grande parte dos alfabetizados não consegue fazer.
Sua casa era como outras da cidade: estreita porém longa, infinitamente longa para mim, uma criança mirrada e espantada. Todos os quartos eram repletos de livros, uma verdadeira biblioteca que, para mim, equivalia o que uma loja de doces equivale para as outras crianças.  Foi de uma daquelas estantes que retirei meu primeiro Eça de Queiroz, uma compilação de contos, dentre eles, um que me aterroriza até hoje. Era sobre um padre que cortou a perna de um porco e quando morreu foi posto numa balança para saber se ia para o céu. Do outro lado, o porco cotó, sangrando, pesava mais e o padre foi jogado nas labaredas do inferno.
Apesar de minha mãe e do professor Gumercindo amarem as letras e terem sido capazes de passar esse gosto para mim, a maior parte da cidade conspirava contra a leitura e o conhecimento.  Naqueles tempos haviam os doidos que perambulavam pelas ruas em terno rotos, batendo palmas nas portas das casas em busca de sobras do almoço ou de um copo d’água. Quase todos tinham histórias sobre antes da ruína, passadas de boca em boca e, certamente, aumentada à medida em que se espalhava. Inevitavelmente tinham sido ricos até que uma tragédia abate-lhes a razão. Para alguns, tinha sido a traição ou o abandono da mulher amada mas a grande maioria tinha enlouquecido por ler demais. Exceto um deles, um negro muito elegante do qual não lembro o nome, que tinha estudado muito matemática e pirou geral. Assim, de uma hora para a outra.
A leitura, portanto, devia ser como uma droga, um veneno medicinal, que só podia ser usada em doses pequenas, calma e lentamente, tendo cuidado ao mistura-la com outras coisas. Meu tio sofreu um derrame e, dentro de casa, o diagnóstico foi o seguinte: almoçou e depois foi ler jornal. Durante anos acreditei que ler depois de comer podia matar.
Posso dizer que só existo por causa das letras.  Não fossem elas, meus pais não teriam se conhecido. Após tentar a vida em São Paulo como músico (chegou a gravar um disco), açougueiro e operário, meu pai voltou `a pequena Propriá decidido a mudar de vida e ascender socialmente. Então, deu o primeiro passo, que foi se inscrever no programa de alfabetização federal, para aprender a ler.
Adivinhem quem era a professora, que rompeu um noivado promissor por estar igualmente apaixonada pelo aluno?