Uma história meio tensa

Era um desses domingos da vida, tediosos como são todos os domingos. Tomou café da manhã com a família e se dirigiu a banca de revistas para comprar os assuntos da semana. Foi só pois seu filho mais novo, companheiro dessas incursões semanais, decidira ficar em casa. Mentalmente revia os gibis e chocolates favoritos das crianças quando foi abordado por dois homens altos, fortes e o pior, armados. Tudo aconteceu muito rápido: foi enfiado na mala do carro já algemado, encapuzado e com uma fita adesiva tapando-lhe a boca. Estava quente e escuro lá dentro.

O automóvel circulava. Mas seria incapaz de dizer os minutos ou quilômetros. Estava aterrorizado.

Foi retirado da mala e levado a um lugar que cheirava a marcenaria e, de fato, o chão era coberto por pó e lascas de madeira. Longas horas se passaram – ou seriam apenas alguns minutos? – sem que lhe retirassem o capuz, as algemas e a venda. Sentia calafrios, sede e medo, muito medo.

Ouviu vozes e percebeu que seu resgate estava sendo negociado. O preço era alto e sabia que sua mulher não tinha como levantar aqueles fundos de um momento para o outro. Os bandidos queriam resolver logo aquele assunto e negociavam em ligações curtas, talvez com medo de serem rastreados, pensou.

Não soube explicar a si mesmo como tudo parecia se resolver rapidamente pois ouviu que a transação por sua vida estava marcada àquela madrugada.
Os bandidos celebraram ao seu modo, ouviu garrafas sendo abertas, líquidos derramados e copos brindando. Ele também foi contemplado com uma quentinha jogada no chão. Tiraram-lhe a mordaça e o capuz e devorou uma mistura de sabores não identificados de joelhos, enfiando a cara no prato como um cachorro.
Dormiu, exausto. Foi acordado repentinamente com um barulho de vozes. O negócio tinha dado errado, a polícia aparecera, houve tiros, um dos bandidos foi baleado mas conseguiu acertar o representante da família. Gelou. Quem poderia ser? Seu pai? O tio da sua esposa, o ex-militar? Um advogado? Como se não bastasse, mais uma preocupação lhe afligia naquele momento.
Estavam furiosos, os bandidos. Ouviu toda sorte de xingamentos e ameaças que se estendiam à sua família. Quando tentava balbuciar algo, o som saia abafado pela mordaça. Sentiu falta de ar, sentiu o coração saltando para for a do peito, sentiu um frio inesperado atravessa-lhe o corpo. Sentiu que seu momento chegara quando foi arrastado por um dos homens, quando tiraram se capuz e mordaça e ouviu uma outra voz dizer que gostava de olhar no olho de quem matava.
De fato, havia um revolver apontado para sua testa. Ouviu um click. Tudo ficou escuro por um segundo. Não havia morrido, a arma estava descarregada mas foi o suficiente para quebrar sua alma: com o corpo dobrado, chorava compulsivamente, misturando lágrimas e vômito, urina e fezes.
Nesse momento, luzes foram acessas, câmeras surgiram, bem como mulheres com peitos enormes saltando dos biquínis. Viu sua família, incluindo irmãos,pais e até mesmo um colega de trabalho, como uma visão insólita do fim.. Sorriam, expondo dentes claros que refletiam as luzes fortes instaladas no teto.
Os bandidos piscavam condescendentemente para ele.
Todos gritaram em uníssono:
– PRIMEIRO DE ABRIL!!!!
Um néon acendeu-se sobre sua cabeça e nele estava escrito, Vídeo Pegadinhas.

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