Cinema

 

        Tudo começou na fila da pipoca e do refrigerante. A ação foi rápida e, obviamente, cinematográfica. Em menos de cinco minutos o bando conseguiu enfiar todas as pessoas na sala de projeção, tranca-la, render o projetista e inicia a exibição.
Eram seis profissionais e um fã. A diretora usava um Colt Python de seis polegadas, todo cromado com cabo de Madeira.

        Uma bela peça mortal.

        Os outros, sendo um produtor, três atores e um continuísta empunhavam pistolas vagabundas, com ares de que foram compradas em alguma feira de troca. O fã ajudava aqui e ali mas não estava armado. Glamour mesmo, só para a diretora.

         Dentro da sala, sob muita tensão, a diretora executava seu número. Tinha investido muito tempo da sua vida para fazer aquele filme, passara noites acordada escrevendo projetos para editais, buscando patrocinadores, preparando orçamentos, etc.. Dois anos e muitas caixas de ansiolíticos diversos depois, começou a rodar o filme. Houve muitos problemas durante a filmagem. Um rolo inteiro perdeu-se entre a locação e o laboratório, teve aquele acidente que quebrou a perna e quase rouba a vida de um dos maquinistas, o cenário principal – uma versão psicodélica do antigo Bar Savoy – pegou fogo e depois disso desabou algumas vezes, obrigando todos a pararem por dias. Sem contar com o ator que resolveu pirar no dia de folga e cortou o cabelo, atrapalhando completamente a continuidade.

        Entre as filmagens e a montagem, mais dois anos de sofrimento, alguns furúnculos, um casamento desfeito, dois ou três surtos psicóticos seguidos de crises de depressão, culminando com a completa falência financeira. Mas o filme estava pronto!

        Quatro anos de auto-imolação resumidos em uma hora e meia de fotogramas seqüenciados.         

         Então começaram os festivais. O filme foi exibido e até mesmo apreciado por parte da crítica. O problema é que as salas nunca lotavam e ainda tinha gente que saia na metade. A diretora e seus comparsas de crime acreditavam que era injusto tanto trabalho e tempo dedicado àquela obra e no final receber em troca o desprezo do público.

         Decididos a reparar tal injustiça, planejaram invadir salas e obrigar o público a ver todo o filme. Sentados, em silêncio, sem direito a banheiro e muito menos pipoca e refrigerante. Em seu raciocínio era uma ação educadora pois oferecia ao espectador comum a possibilidade de contemplar uma obra de arte com todo o respeito que ela merece. Talvez isso mudasse suas vidas medíocres para sempre ☺.

        O produtor, um homem de rara habilidade diplomática, manteve uma longa negociação com a polícia do lado de for a, de modo que a sessão foi até o último nome dos créditos finais. Depois disso, todos foram levados direto para a delegacia, algemados e ridicularizados por que as armas eram tão falsas como um história de filme.

        Mesmo assim a diretora sorria em êxtase profundo.

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