Stereotipado

Há alguns anos eu estava em Laranjeiras, cidade do interior de Sergipe, quando recebi uma lição. Minha tarefa era participar de uma jam com um grupo de “samba de parelha”, curioso estilo de música local feito basicamente por mulheres a bater tamancos agudos sobre marcação básica de um grave, esse sim tocado por um Adão velho e solitário naquele Éden matriarcal.

Enquanto a gravação não começava, puxei assunto com a líder, uma senhora negra, forte e sadia de corpo e de cabeça. Observei que todas se vestiam com o mesmo tecido de chita colorida e perguntei quem tinha feito aquele figurino. Ela disparou: “Ah, meu filho, isso foi a prefeitura que deu pra gente fazer folclore. Quando nós toca lá em casa cada um veste o que quer”.

Seu discernimento sobre a situação me surpreendeu. Para ela, aquela situação era um trabalho, ou melhor, um emprego, uma rotina que se cumpre para pagar as contas, mera música para entreter visitantes, para aparecer na TV ao lado de um DJ conhecido pela classe média e promover o turismo na cidade. Business. Mas, sem dúvida, um negócio bem diferente do fluxo criado por seus antepassados, seguido por seus pais e renovado por ela e suas amigas naquele quintal festivo, longe da nossa locação. Ela não se achava folclórica. Sua música era a música que vinha do berço escravo, segundo o que ela me disse, consolo das noites de luar, contraponto à aridez do dia-a-dia.

Na maioria da vezes, o estereótipo não vale só para quem o designa mas também para a vítima. O estereotipado acaba por vestir a manta dos preconceitos que lhe são atribuídos talvez por um perverso mecanismo que move a humanidade: a eterna necessidade de se identificar com um grupo. Daí minha supresa com tamanho distanciamento daquela mulher.

Décadas atrás, Luiz Gonzaga jogava o perigoso jogo do estereótipo. Coberto de gibão de vaqueiro, chapéu e sandálias de couro, segurando um sonoro acordeão, o velho Lula formatou a imagem do Nordeste “pop”, muito tempo antes de essa palavra ser popularizada. Seu homem nordestino era sofrido e religioso, mas também simpático e chegado a uma safadeza regada a música e cachaça sob a luz difusa dos candeeiros. Em “A Dança da Moda”, ele celebrava o sucesso do baião no Rio de Janeiro, então capital da República: “É a dança da moda e em toda roda se dança o baião”.

Por trás daquela imagem sertaneja, se escondia um músico brilhante e um produtor inovador que soube dialogar com a tecnologia disponível em sua época e formatou o baião moderno tal qual o conhecemos hoje em ritmo, harmonia e timbre. Muito além de seus contemporâneos, Gonzagão sabia que o que se ouvia a céu aberto era diferente do resultado gravado e se dedicou a arrancar no estúdio o equilíbrio entre os graves da zabumba, o agudo do triângulo e a riqueza cromática do acordeão para fazer a cama perfeita para sua voz característica e a música adequada aos salões de dança brasileiros. No entanto, o que parece ter sobrado, além da música, foi o chapéu de couro, a sanfona, o gibão enquanto marcas de identidade do povo nordestino.

Na segunda metade da década de 1980, ainda com o bafo rançoso da ditadura em nossos jovens cangotes, o Brasil havia se tornado o lugar mais atrasado do mundo, pelo menos para mim e meus amigos. E o Recife, decadente e fedendo a esgoto, nos fazia sonhar com fugas de qualquer natureza, fossem elas químicas, etílicas, literárias ou musicais. Em meio a essa desolação iniciou-se uma cena formada por amigos. No início basicamente uma cena de DJs, mais tarde fortalecida e dominada por duas bandas: mundo livre s/a e Chico Science & Nação Zumbi. O que havia de comum no pequeno grupo era o amor pela cultura pop, do hardcore ao hip-hop, da eletrônica emergente ao raï argelino, sem categorizações ou rótulos, um paraíso de abstração filosófica. Um fantasma, porém, nos assombrava e tinha um nome: identidade. Quem éramos nós? Na cidade, hordas de góticos com seus sobretudos (detalhe: no Recife a temperatura média é de 30 e poucos graus) entoavam hinos fantasmagóricos enquanto camisas-pretas evocavam o satanismo como forma estética de rebeldia juvenil e punks tardios arrastavam correntes de rancor contra a sociedade. Nós não éramos nada disso. Segundo Fred, no seu manifesto, éramos aliens. Sim, pois adorávamos tudo aquilo mas também tínhamos uma ligação muito forte com a cidade, com a tradição enquanto fábula social, com o dia-a-dia daquela que foi eleita “a quarta pior cidade do mundo”.

Quem mais representava visualmente o ícone dessa fase era Chico Science. Do codinome “maluco beleza” às calças de chita e o chapeuzinho sem abas, mas sem perder a atitude do b-boy que ele sempre foi, Chico desenvolveu um diálogo consciente e sólido com a gramática do estereótipo. Ele sabia da importância do seu papel de comunicador. Intuitivamente sabia que se tornando um estereótipo confuso estaria fazendo o contrário, quebrando imagens, desapontando os classificadores de cultura. “Se eu tô te explicando é pra te confundir”, diria Tom Zé. Havia na cena recifense uma abordagem descendente da tática situacionista de apropriação que consistia em tomar pra si um estereótipo, um produto catalogado, representativo da cultura industrial e interferir nele tornando-o algo novo, nosso, autoral.

Se o mundo é movido a rancor, se a raiva é uma forma de energia, nossa força reivindicativa era de termos o reconhecimento na construção do Brasil moderno, contemporâneo. Nunca nos víamos como nordestinos de novela, ingênuos, carolas e conformados. Nunca nos víamos cantando com o sotaque que atores das TVs do Sudeste inventaram para nós e que tanto se popularizou a ponto de, num ato de esquizofrenia social, fazer o próprio nordestino acreditar que no Ceará se fala assim e que todo baiano é assado.

O excesso de informações contidas nos DJ sets da época e na música das bandas era uma exacerbação estética desse Nordeste multifacetado e complexo, envolvido com as transformações do vasto mundo “lá fora”.

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