Demônio Vermelho

Era quase anão, tinha cabelo vermelho e pele clara lisa e impecável, borrada  delicadamente no rosto por algumas sardas. Poderia ser um boneco de porcelana não fose um duende maligno. Era um pervertido nato, um acadêmico da amoralidade, sempre a postos para desafiar o mundo com seu sorriso zombeteiro.

Praticava xadrez por ser “o único esporte que não tem anti-doping” e aparecia nas disputas sempre embriagado, o que só aumentava a humilhação dos derrotados. E foram muitos. O mal depositou naquela cabeça vermelha uma semente forte e impiedosa.

Apesar da pouca  idade, parecia ser mais velho. Um jovem velho numa família em que o mais novo passava dos setenta. Com os parentes mantinha uma guerra aberta e constante desde que aprendera a andar, ainda um bebê.

Por isso o espanto.

Quem saberia dizer o porquê de ter convidado todos os parentes para sua festa de aniversário? E não só isso: recebeu-os à porta, serviu-lhes pessoalmente refrigerante e bolo de chocolate, em riso aberto de franca alegria, comentava, “fui eu que fiz”.

Num certo momento, quando a vitrola tocava música de tempos passados, entorpecendo os convidados em nostalgia fina e leve, bateu com a colher numa taça e pediu atenção.

Agradeceu a presença da família e listou nominalmente alguns dos convidados ilustres, uma série de nomes cobertos de mofo, coberto da poeira do tempo, como Tia Odete, Dona Didi, Tio Almedinha, Seu Gumercindo, etc…

Do seu olhar parecia nascer um brilho feroz e divertido enquanto a boca mexia-se lentamente, um prenúncio ao riso zombeteiro.

Recordou sua infância, sua criação disciplinada e como tinha dado trabalho a todos por causa dos arroubos juvenis. Um deles – e o sorriso ia ganhando sua forma definitiva –, era o hábito de fumar maconha, coisa que causava horror em todos, razão de tantas brigas entre ele e seus amados parentes. E quantas vezes foi recriminado, quantas vezes apontaram o dedo para ele, quanto desprezo ganhou por causa desse hábito peculiar.

Os olhos, quase em chamas.

– Agora, está tudo resolvido, não haverá mais brigas entre nós, afinal, eu não sou mais o único maconheiro da família. Todos vocês são, por que, sabe esse bolo de chocolate? Tem maconha nele e vocês estão todos emaconhados que nem eu.

Fez-se a confusão no ambiente, pressões baixaram e os efeitos da planta, antes confundidos com bem-estar, se fizeram presentes sob forma de alucinações.

O sorriso torto e zombeteiro brilhava em seu rosto e fazia com que ele parecesse um sol enlouquecido.

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