A Beca

Me encantam os nomes das ruas, dos bairros e das favelas do Recife: Linha do Tiro, Planeta dos Macacos, Entra a Pulso, Roda de Fogo, Rua da Harmonia, da Amizade, das Flores,  ou simplesmente – não estou inventando, é verdade! – Rua da Merda.

Eu morava na rua da Aurora, de frente para a do Sol, separadas pelo rio Capibaribe que, reza a mania de grandeza do recifense, junta-se ao Beberibe para formar o Oceano Atlantico.

Naquele dia Chico vinha de Rio Doce, um bairro popular de Olinda. Para chegar no meu minúsculo apartamento ele descia na Cabungá e andava uns quatro quarteirões embaixo desse sol matador que nos torra diariamente.

É importante pensar nesse trajeto longo, primeiro de ônibus e depois a pé, porque o sujeito estava completamente fantasiado, usando um figurino que, bondosamente, eu chamaria, apenas, maluco.

Recife, “a maior cidade pequena do mundo”, cultiva seus doidos de rua com pão, cachaça e pedras. É espantoso, portanto, que ele tenha sobrevivido ao trajeto sem um galo na testa, impecavelmente limpo e sem rasgões na roupa.

Deixe-me descrever o que vi: na cabeça dele, aquele chapeuzinho de palha sem aba e óculos enormes com pinta de brechó. No pescoço, um colar de contas meio com sabor de candomblé. A camiseta, uma Hering branca, contrastava, por ser discreta, com uma calça folgada de chita florida que se encerrava no meio das canelas, mostrando um meião que descia ate um tênis Conga.

Bom, tinham ainda os anéis, o relógio de pulso e, pra completar, a munganga de b-boy, suingada e flutuante.

Hoje seria completamente admissível ver alguém vestido com essa mistura de trabalhador da cana-de-açúcar/b-boy do Parque 13 de Maio. Mas, amigos, entendam, era o começo da década de 1990 e pela primeira vez víamos Science encarnando o personagem que o consagraria.

Estavam comigo Fred Zero Quatro e Renato L, também conhecido como o “ministro da informação” do mangue. A surpresa foi geral assim como a galhofa. É verdade que Zero Quatro também usava uns adereços bizarros na roupa como chips e bótons, além de um enorme chapéu de palha. Mas nada que chegasse perto da excentricidade de Science.

O objetivo daquele encontro era a primeira entrevista para a MTV, a mais importante fonte de informação musical naquele Brasil sem internet, alimentado por revistas amadoras e jornalistas picaretas.

A roupa de Chico contrariava e criava um estilo de se vestir dentro da cultura da musica pop brasileira. Especialmente pela ocasião, havia uma forte ironia, pois a MTV chegou formatando, ensinando a molecada como se vestir de roqueiro, clubber ou b-boy. E a roupa de Chico rompia com os parâmetros trazidos por quem ia entrevista-lo. Seu forte senso de comunicação impunha um conceito baseado no maracatu rural com o background de dançarino de break beat. Estava ali um manifesto inteligente e original, dialogando com a essência do pop internacional, ao mesmo tempo em que falava com o povão castigado do interior.

Os ecos da nossa gréia (assim a chacota é chamada no Recife) se perderam no tempo. Mas aquela roupa insólita vai ficar na cabeça das pessoas até um futuro que a vista não alcança.

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