Tira-Tira

Tira-Tira. Era assim, simplesmente, que todos o chamavam. Negro esguio, cabelos grisalhos, elegante em suas roupas simples de vendedor de amendoim. Tinha o sorriso malicioso dos nascidos e criados na putaria e o olhar dos que pertencem a um mundo com outras regras.

Se alguém sabia seu nome de batismo – se é que foi batizado -, não era conhecido ou encerrava-se em silêncio monástico. Mas todos sabiam de onde vinha seu nome de ruas. Tira-Tira.

Muitos anos antes, foi jovem e cheio de viço, a pele brilhava de suor  enquanto corria pelas ruas do Recife Antigo, subindo e descendo as escadas dos bordéis, ganhando trocados por favores diminutos. Via no trabalho das mulheres um ganha-pão como outro qualquer. Ou um trabalho melhor ainda, visto que se tratava de aluguel do corpo, sem esforço. Uma moleza que gerava dinheiro fácil, perfumes, cigarros e bebidas.

Um dia decidiu entrar no esquema e enganou um americano alto e vermelho que procurava pela mulata Neusa. Deu sorte no golpe e arrastou o gringo para um quarto. Enganou-se ao achar que ser mulher é um negócio simples e que o dinheiro era fácil. Quando sentiu o gringo a rasga-lhe as carnes, quase chorando, gritou desesperado: tira, tira…

Como em puteiro sabe-se de tudo da vida alheia, ganhou um novo nome e virou história.

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