Táxi

Entro no Táxi e imediatamente me arrependo. Não fosse pela malas e pelo cansaço de uma longa viagem internacional, ficaria ali mesmo, no escuro, há algumas quadras do aeroporto. Melhor que dividir uma longa corrida com um motorista visivelmente transtornado. Uma mão no volante, outra com vida própria, inquieta e insatisfeita em sua procura por algo inexistente dentro do carro.
Não deu cinco minutos e ele desabafou. Não tem nada pior do que passar o que estou passando, disse.

Pausa.

Suspiro.

Diante do silêncio constrangedor, me vejo obrigado a perguntar o que aconteceu. Com voz embargada, me responde.

– É duro demais amar sem ser amado…
E continua. Casou-se com a namorada depois de uma gravidez não planejada. Tinham uma filha de três anos, mesmo tempo que passaram juntos. A filha adorava-o, a família dela também e todos os amigos achavam que eles deviam estar juntos mas, justamente ela, B, é que não concordava com esse negócio de voltar. Deu de tudo pra ela e até compraram uma apartamento juntos que já não mais lhe pertencia.
O sentimento verdadeiro é feio e repulsivo, também não é inspirador, não gera boas idéias ou boas tiradas literárias. A única coisa que pude dizer naquele momento foi que quem está vivo só pode ter certeza de duas coisas: que vai morrer um dia mas antes vai sofrer por amor. Daquele pote todo mundo já bebeu ou vai beber um dia. Não há nada que se possa fazer senão deixar o tempo passar, etc, etc e, se ele tinha certeza que não havia volta, que cuidasse de ter boa relação com a ex, por causa da filha.
Como um protagonista dos versos imortais de Caymmi, o pobre-diabo “teve que desabafar, dizendo a todo mundo o que ninguém diz” e contou como havia acabado de encontrado a pérfida B em Afogados, relatou sua indiferença, percebeu até uma certa felicidade em seus olhos…
A essa altura, o choro eminente foi abrindo espaço e voltamos ao silêncio, rompido subitamente por um inesperada confissão.
-Também… fiz muita besteira, visse?
E assim começou a segunda parte de sua narrativa amorosa. Traira a mulher desde que ainda eram apenas namorados. O problema foi uma médica que conheceu numa corrida, naquele mesmo taxi. Ficou com ela por umas semanas até que a pressão para abandonar a família e ir morar com ela em seu apartamento na Mustardinha fez com que ele tomasse a iniciativa de deixa-la. Claro que houve recaídas e numa dessas, a última, regada a uísque (coisa farta na casa da doutora) ela disse que não era rapariga e que ele fosse embora.
Chegou em casa bêbado mas antes de dormir com roupa e tudo, sussurrou no ouvido da mulher que nunca iria deixa-la. B estranhou a declaração, percebeu o bafo e, como boa crente que era, comentou que ele não devia beber.
No meio da noite o celular toca dentro bolso da calça e ele nem percebeu. Ele. Acordou zonzo com sua mulher, a crente, aos berros, dirigindo os palavrões mais cabeludos e pouco religiosos a sua amante do outro lado da linha.
No outro dia, ainda de ressaca, teve que decidir o que faziam, venderiam o apartamento, ela podia ficar lá com a filha, enfim, o que fazer? Não levou a sério e disse que tudo era dela. Foi tomar uma coca no bar da esquina e quando voltou percebeu que o negócio era sério: suas roupas e objetos pessoais estavam em uma mala e duas sacolas de supermercado bem na entrada do apartamento.
Caiu na farra por uns dias até que o remorso e saudade fez com que ele procurasse sua ex. Falou mansinho, declarou-se culpado e tudo ia bem, uma janela abrindo-se lentamente para a solução. Conseguiu dela uma esperança. “Vou lhe dar uma chance de se consertar”. Alívio. “Mas tem que ser rápido por que a fila anda”. O quê? Não passou por sua cabeça que B podia desejar outro homem. O sangue subiu aos olhos, o ciúme antecipado deixou-lhe enlouquecido a ponto de, naquela mesma noite levar “três nêgas pra se agarrar comigo no bar em frente da lanchonete em que B trabalha”. Ela, aparentemente, ignorou-o. No outro dia, porem, negou-se a servi-lhe um refrigerante e disse que nada mais lhe serviria “por dinheiro nenhum desse mundo”.
Dois dias depois estava ele no Pina, tranquilo, matutando sobre o tanto de besteira que fez, quando lhe aparece uma vizinha. Ex-vizinha. Pergunta-lhe sobre a mulher, ele conta o que houve. Coincidentemente ela também tinha se separado. Não deu outra: em menos de duas horas estava no bem bom na cama da vizinha. Até que alguém bate na porta. Era o marido, ou ex-marido dela. E só naquele momento ele soube que a tal separação tinha ocorrido apenas há dois dias e que, provavelmente, ele estava de volta para um reconciliação. O cara era forte e alto enquanto nosso heroi é franzino, baixinho, incapaz de atos físicos exacerbados a não ser no leito do amor. Então, viu-se obrigado a sair da janela do terceiro andar, tentar a fuga através do parapeito, contrariando todo o seu pavor de altura. Acordou no hospital com um lascão na cabeça e dores em todo o corpo.
A vizinha não fala mais com ele mas se exibe com de mãos dadas pelo bairro com o corno e esse sim, faz questão de cumprimenta-lo quando o encontra.
Naquele dia tinha tentado falar de novo com B que contou-lhe “estar gostando de alguém”.
A corrida estava quase no fim. Tentei argumentar que, muito provavelmente a história da fila que anda era uma invenção da ex para se valorizar um pouco diante de tanta presepada que ele havia aprontado. Talvez valesse o mesmo para esse “alguém” de quem ela estava gostando.
Me despedi desejando-lhe sorte mas principalmente, juízo. E larga de ser vacilão, meu véio!

PS: O protagonista é realmente franzino, ossudo, pernas finas, com um oásis de cabelos na cabeça decorrente do acidente. Nunca vi um Casanova tão feio!

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