Palavras para o GIL 70

O DIA EM QUE GILBERTO GIL ME DESARMOU por DJ Dolores

Encontrei Gilberto Gil algumas vezes, a maior parte delas em lépidos backstages, impregnados de pressa, correria, falas entrecortadas, gestos entusiasmados em contraste com bocejos cansados dos técnicos que iniciaram a longa jornada antes de todos e que só teria fim quando todos se forem.

Posteriormente, estive presente em reuniões promovidas para manter contato com artistas locais durante sua experiência no ministério. Nesses casos, mesmo que os ambientes cheirassem higienicamente a oficialidade, sua atenção aos convidados demonstrava um real – e raro, entre pessoas com tantas responsabilidades – interesse em saber o que o público tinha a dizer.

Fiz um remix de um dos seus trabalhos, “Oslodum”, que foi encartado na revista Wired, dando o pontapé inicial ao modelo Creative Commons de licenciamento. Fiquei muito orgulhoso, agradecido e admirei sua generosidade e empenho por uma causa avançada que costuma arrepiar os pelos dos velhos compositores.

Gil, como um Pacman faminto, ganhava pontos no meu coração iconoclasta.

Mas nem sempre foi assim…

No começo dos anos 80, eu vivia em Aracaju, tinha uns 16 anos e planejava silenciosamente minha fuga para qualquer outro lugar. Dois anos antes, havia descoberto uma música que trazia mensagem, atitude, que enchia minha cabeça de macacos selvagens e besouros furiosos, que atacavam minha imaginação adolescente e me fazia escrever freneticamente para fanzines e pessoas espalhadas pelo mundo, compartilhando as fúrias e frustrações adolescentes. Estou falando da cena punk e estilosa da velha Inglaterra combinada com o hardcore emergente americano, politizado, irônico e inundado do suor da catarse juvenil.

Nesse período, todas as músicas deixaram de existir, e o mundo virou uma foto negativa onde o sol nascia para escurecer, e as noites eram cheias da luz que banha os conspiradores. Tudo o que fosse normal, era burguês e, portanto, execrável, assim como coisas bonitas, fofas, arrumadinhas, etc… Era um período radical, e a palavra PUNK era a senha para uma estranha confraria juvenil que se reunia embaixo das pontes e esgotos da cidade. Era a nossa sociedade secreta, nossa loja maçônica, nosso clube conspiratório!

Então, numa noite morna e entediante de domingo, quando os adultos suspiram melancolicamente ao lembrar que a semana de trabalho vai recomeçar, e as crianças giram freneticamente para gastar as últimas horas de liberdade, aconteceu: o Fantástico estreou o clipe de “Punk da periferia”, de Gilberto Gil. Era uma música alegre, colorida e solar, com uma letra descritiva e sem nenhuma guitarra suja ou vocal gritado como teria que ser uma música que usasse o santo nome PUNK.

(Fim do mundo, apocalipse, fúria, raiva e sentimentos de destruição. Pelos pentelhos de Sid Vicious, por Jello Biafra , com mil cobras, ratos de esgoto e bichos peçonhentos!!!!)

Se pensamentos matassem, Gil estaria morto naquela longínqua noite de 1983. Claro que não seria uma morte simples! Antes, passaria por um tribunal PUNK, onde seria desmascarado como burguês e executado da pior maneira possível ao som do super-extra-ultra-rápido-sujo hardcore dos finlandeses Rattus, que estourariam seus miolos como num filme de David Cronenberg.

Corte de tempo para 1986.

Recife era minha nova cidade e, por sorte, cai bem no meio da turma que seria o núcleo inicial do que seria conhecido como Mangue Beat. Alguns, do mesmo modo que eu, foram educados pelo punk, radicais como se deveria ser naqueles tempos pós-ditadura, em que não havia espaço para dubiedades: ou você é isso, ou você é aquilo. Ou você é um de nós ou é o inimigo.

(Curiosamente, a cena que surgiria dali seria das mais ambíguas e ecléticas, evocando o elogio à pluralidade desde o nome, uma referência à diversidade ecológica do mangue)

Um de nós seria conhecido como ministro da Informação do Mangue e, muitos anos depois, assumiria o papel de secretário de cultura da cidade do Recife. Foi ele, que trabalhava numa ONG, quem me chamou para acompanhá-lo numa entrevista a… Gilberto Gil.

Eis a chance da vingança!!! O rancor por pintar com cores fortes e alegres uma canção sobre o sagrado tema PUNK ainda era forte. Claro que eu iria desabafar, ia falar umas verdades, ia abrir o bico. E lá fomos nós a fazer planos malévolos:

– Olha, eu estou trabalhando, mas se você começar, eu vou atrás.

– Pode crer, deixa comigo: vou esculhambar com esse cara. Acho que vou cuspir nele.

– Se você cuspir, eu cuspo também.

E durante o longo percurso entre o Centro do Recife e o hotel em Olinda onde Gil se hospedara, traçamos estratégias sinistras e elaboramos críticas implacáveis, impublicáveis e moralmente doentias.

Chegamos no hotel, e logo ele apareceu. Só, sem nenhum acompanhante. Sereno e simpático, nos cumprimentou. Talvez tenha sido a primeira vez que eu tenha percebido um dos talentos humanos mais difíceis de descrever e impossível de desenvolver por sua natureza nata e não transmissível: o carisma.

A entrevista foi tranquila, e confesso que fiquei encantado, embevecido até, com a prosa inteligente e a docilidade quase feminina daquele homem tão diferente dos homens que eu conhecia.

Calado fiquei, esquecido dos meus planos, atento à conversa.

E agora, estamos em 1996.

No Abril Pro Rock, me lembro de seu ar moleque no palco, um menino cheio de energia, ao lado de Chico (Science), cantando “Macô”.

Parecia até que era da nossa turma… E era, um verdadeiro mangueboy!

| CONFIRAM este e outros textos no site: Gil70.com

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